sexta-feira, 30 de abril de 2021

Canto à Coragem

Que não me falte coragem
para seguir.
Pois a quem já foi posto 
o último cálice
e bebeu de si mesmo toda amargura
saberá distinguir:
o tolo do fraco
dentro de si.

É verdade, irmãos de dor.
Somente ao tocar a mais longínqua das profundezas
pude compreender a verdadeira solidão.
E, do mesmo modo,
somente ao cativar
a mais tenra companhia
e perdê-la,
pude atingir a raiz mister
donde é nutrido o rio de sua ausência.
Ausência que confunde até o tempo
e o girar de todos astros.

Só quando senti
o mais escaldante calor
que vem do sol
que ilumina somente a ti.
O único e genuíno sol
proveniente de ti.
E somente quando esse sol se pôs à mim
que descobri o que é o frio.

É preciso coragem
para escrever letras que não cheirem a carniça.
Talvez eu tenha sido covarde.
Talvez eu tenha sempre sido medroso.
Talvez, por isso, o sol se pôs.
O mais belo de todos os sóis.
Que sois vós?
Fragmentos de um sonho afogado em sua própria beleza,
mas desperto em solidão.

Clamo pela minha própria coragem.
Clamo pela força que há de existir.
Pois após desfrutar da mais congelante solidão,
após despertar do sonho mais belo que a vida,
já havia de ter sucumbido. (Não é mesmo?)
És devera forte, meu amigo.
És reto em estradas sinuosas
e és rígido.
És deveras corajoso,
pois teu coração apunhalado
pelo orgulho
quis definhar, mas não se opôs a bater.
És lindo, meu espelho.
És lindo pois exclama este canto,
deixando sua voz rugir.
Já foste gato, mas hoje és leão.
É preciso coragem 
para poder seguir.
E eu sigo,
mesmo estilhaçado.

É chegada a hora de ressurgir.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Memórias

Desde que você se foi
o mundo gira diferente.
O mundo gira indiferente
desde que você partiu.

O mundo gira porque deve,
ou porquê ninguém o ensinou a parar.
Mas é tanto desgosto que em breve
esse mundo há de parar de girar.

O tempo corre acelerado
desde que você partiu.
Mas continuo aqui parado
Indagando (indignado) porquê você sumiu. 

A dor é uma régua
na qual se mede
o tamanho do amor.
E o clamor por uma trégua
é o que pede
o refém da própria dor.
O amor é uma régua
na qual se mede
o tamanho dessa dor.

Memórias que ardem.
Memórias que ferem a carne.
Memórias que humilham, ao afirmar:
"Eu sou passado.
Eu sou eterno.
Eu NUNCA MAIS irei voltar.
E você, seu tolo demagogo,
não foi o melhor enquanto pôde!
NÃO DEU O DEVIDO VALOR!
E HÁ DE SE AFOGAR EM SEU ARREPENDIMENTO!
ELA NÃO VAI VOLTAR
E EU TE SENTENCIO
A ETERNIDADE
com esse vazio no peito,
com esse vazio no andar.
Você há de levantar todos os dias e,
por breves instantes,
você há de sorrir,
mas em todo momento 
eu hei de te lembrar:
Ela não está mais aqui
nem nunca irá voltar."

É isso que minhas memórias me falam,
toda vez que me invadem.
E o plano de fundo da minha mente 
é você.
Esteja destraído ou concentrado,
lá está você.

Essas memórias ardem, me lembrando:
"Foi feliz,
mas foi tão breve...
Você lembra do toque dela?
Quando entrelaçava sua mão?
Ou dizendo que adorava 
te ver bravo?
Ou quando falava
'onde fui amarrar minha égua...'
ou 'não me farraiva não...'.
Eu sei que você se lembra.
Me desculpa, te torturar.
Sei que são palavras em vão.
Mas eu tambem choro e sangro
com essa triste separação."

E eu sinto pena do meu carrasco.
A dor é a régua 
que mede
o tamanho desse meu amor.
Por que você não volta?

Memórias...


segunda-feira, 19 de abril de 2021

Eu trocaria

Eu trocaria

meu orgulho,

meus anos por vir,

meus diplomas

e todos meus predicados

pra ter você.


Eu trocaria

meus títulos, 

minha identidade,

o que sobrou da minha sanidade

e meu coração (desapontado)

pra ter você.


Mas seu amor não é escambo.

Tornou-se escárnio,

tornou-se opaco.

Ou não tornou-se,

por nunca ter sido.

E no máximo estado

que esteve,

sequer foi cativado.


Esse meu mundo é tão azedo,

quando não é amargo.

Mas você é doce.

Você foi doçura

que da minha loucura

fez despertar o que é puro.

E eu já nem lembrava mais

haver pureza

nessa galáxia e nas demais.

Já nem lembrava

haver beleza

que não cobra seu apreço.


São tinta e lágrimas.

Segurei-vos por 7 dias

e por 7 dias acumulei-vos.

Tinta e lágrimas

só vós me restais.


Esse amor que não é escambo.

Esse amor que só eu vi

e me deixou tão fraco.

Amor tão belo

que reverberou em mim.

Fez amar à mim

o reflexo do amor por ti.

Mas não há mais ti.

Não tem mais reflexo.

Não tem mais ti.

Há somente escuridão e eu.

Tinta e lágrimas.

Revolta com deus.

esperneios e lástimas.

Escuridão e eu,

eu e meus fantasmas.


Não tem mais ti

e eu sonhei com nós.

Eu torci por nós,

eu trocaria o eu.

Mas não tem mais ti,

e eu matei o eu

ao sonhar com nós.

Mas só restais vós:

Tinta e lágrimas.


Nem mil bombas atômicas

destroem mais do que a combinação:

meu amor e sua rejeição.


Um segredo:

é infinito

tudo aquilo

que reside após o fim.

Fé em Deus (será que dá?)

Fé em mim.


quinta-feira, 8 de abril de 2021

Vago

Eu já esperava,

uma cachoeira de lágrimas.

Vieram prantos.


Eu já esperava,

sua invasão nos pensamentos.

Invadiu também os sonhos.


Eu não esperava,

que fosse abrupto,

que do dia pra noite

me encontraria assim

tão desmilinguido.


Será que eu sou louco?

Mergulhado em devaneios,

submerso em ilusão.


E as memórias doces

de momentos afetuosos,

será que são delírios?


A sua ausência

alterou minha órbita.

O dia virou noite,

o inverno verão.

A certeza virou dúvida,

e depois certeza do oposto.

E, por fim, o oposto da certeza.


E agora?

O que é que vem

depois do fim,

quando não há desfecho?


Vago. 

Vago por aí com pensamento vago.

Vago por aí com pensamentos teus.

Vago por aí com coração vazio.

Vago por aí com coração apertado.


Vago por aí lamentando

o seu sentimento vago

que não floresceu com o meu.

Nosso jardim virou deserto

e por ele eu vago.

Incrédulo com o amor

que não sucedeu.